Manto de nuvens
sobre o azul
afim de esconder
os fragmentos dessa história
batalhas mudanças palavras inconvenientes
tudo aquilo que ainda tento entender
as razões a possível realidade
embrulhar as lembranças nalguma espécie de sentido
e eu sei
que as palavras nunca tiveram a obrigação de explicar
o mistério daquilo que fomos
tão inútil vasculhar
os velhos motivos para a dor
momentos em aberto
ainda imagino o que estávamos pensando
quando começamos esse absurdo
olhar na cara da lua e enfrentar meus medos
perguntar se há algo que ainda leve
ao perdão
para cada volta e tentativa
acidentes que custaram
novas camadas de angústia
fantasmas dessa esperança de que o final
de alguma forma
ainda teria que ser bom.
Postado em Uncategorized em maio 14, 2012 por meuparedro
Postado em tempestade em abril 17, 2012 por meuparedro
Lembro bem da tua voz
tão leve.
A harmonia do instante perfeito.
É outono e o idílio acabou.
Incapaz de desistir, me habituei a correr sozinho.
O capim cresce alto, a relva dourada ondula e sussurra.
O dia nasce como ferida que abre novamente.
Em silêncio, a criação parece espantada por ainda existir.
Como planta que jaz ao sol sem refresco,
eu me confundo com a paisagem e
perco o meu tempo.
Postado em idílios, tempestade em abril 4, 2012 por meuparedro
Estávamos lá,
tínhamos aquilo.
Quisemos tornar realidade.
Mas nossos caminhos não harmonizavam,
dificilmente iríamos para o mesmo lado.
Parecia lógico desistir,
mas eu não quis.
Não era a maneira de pensar a vida.
Você foi comigo, e andamos pelas noites.
Cada movimento uma promessa.
Não sabíamos se eram apenas momentos mágicos onde
tudo se encaixava,
ou se a vida poderia realmente
ser assim.
Mas as coisas nunca quiseram ser simples.
Mundos famintos exigindo cada minuto do nosso tempo.
Visões, prioridades.
A ponte ruiu.
Agora
o tempo vai passando
e ás vezes parece tão errado
ter aberto mão
em nome da facilidade dos dias.
Poderíamos ter ido longe
mas ficamos assim
agradecendo ás estrelas embaçadas
por tudo o que se tornou menos complicado.
Entende o que estou tentando te dizer ?
Aquela dor agora é outra coisa.
Postado em as coisas em março 26, 2012 por meuparedro
De tempos em tempos,
vejo-me transformado num poço
caindo infinitamente
dentro de mim.
É difícil admitir que, por melhor que possa ser às vezes,
por mais verdadeiro que pareça o sentimento,
por mais que tudo se encaixe por um instante,
ainda sou apenas eu com a minha vida.
Eu com a minha vida diante da vida dos outros.
Na maioria das vezes,
cair em si é uma merda.
Postado em Uncategorized em fevereiro 14, 2012 por meuparedro
Uma menina me fez acreditar em dias perfeitos.
Agora, eu sei que ela está em algum lugar na periferia das coisas,
vivendo uma vida antiga.
Ela escolheu assim, e estou aprendendo a não lamentar.
Senti, não pela primeira vez, a tristeza de compreender que
somos como um sonho.
Eu penso na menina e nas alegrias perdidas
(só os deuses merecem a existência de crenças, porque são imortais)
e toda a história que nunca vai acontecer e me dou conta:
Se acontecesse, seria com o tempo um evento a mais,
uma lembrança, mais uma das vaidades ou hábitos da memória.
Agora é ilimitada, infinita. Capaz de qualquer forma e qualquer gosto
e independente de todas as pequenas coisas constrangedoras.
E existe, existe de algum jeito.
Viverá e crescerá como uma música e estará comigo até o fim.
Por isso eu posso dizer; está tudo bem, minha querida.
(também os homens podem acreditar, porque na própria fé
há algo de imortal.)
(Gracias, Señor Borges)
Postado em Uncategorized em fevereiro 6, 2012 por meuparedro
“O amor é o esforço da perfeição. Nada mais do que o esforço.“
(Hilda Hilst)
Postado em tempestade em janeiro 23, 2012 por meuparedro
Se eu pudesse explicar
(como tudo só deixa mais triste quando já estou triste)
as coisas que podem ser ditas parecem papo de bêbado agora.
(deitado na cama, as luzes girando)
Perdido em minhas próprias palavras
(levante-se, abra a cortina. Veja a chuva caindo)
Você pode estar com alguém que se sente sozinho também
(ás vezes é difícil perceber)
e que está tentando chegar até você.
(as palavras são tão ineficientes)
Quando o seu próprio vazio influencia tudo o que te cerca,
chega a hora em que você não tem mais certeza
do porquê de continuar tentando.
Eu já passei deste ponto
e não suporto mais andar em círculos;
essas espirais que só levam ao fim.
(você sabe como é inútil, quando um dos lados não acredita)
A voz dizendo “você vai permanecer nisto
até encontrar algum tipo de identificação”
Bem, eu te vi por entre as risadas e gritos,
você corria atrás das mesmas velhas coisas
e enquanto todos disputavam um instante do teu sorriso cansado,
pensei em todos esses anos
que passei procurando pelo amor
nos teus olhos.
Agora estou aqui pensando no que poderia ter ficado
(algo que você pudesse reconhecer)
sabendo que meus sentimentos podem te afastar.
Ninguém mais fala sobre sentimentos mesmo,
sem vesti-los com ilusões ou humor.
Acho mesmo que seria dolorido demais de qualquer outra forma.
Essa chuva faz todo o sentido.
Ponteiros do relógio que se arrastam
camadas repetidas do dia
componentes de um grande buraco.
O silêncio depois que a porta bate
(lá embaixo estão as coisas do dia, a paz da cozinha)
preparações para mais um dia
(um a menos, outro a mais, todos esses dias)
em que me empenho em viver e construir e alcançar o possível
e luto e erro e quem sabe
consigo esconder a lembrança
dessas coisas
que estiveram evidentes desde o início.