Archive for the Referências Category

Posted in Referências on outubro 30, 2012 by meuparedro





Poesia
é apenas a evidência
da vida.
Se sua vida
estiver ardendo
como deve ser,
a poesia
representa apenas as cinzas.

(Leonard Cohen)





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Posted in Referências on novembro 14, 2011 by meuparedro





Descobri que algumas noites não terminam.
Que não existe demônio,
é apenas o nome que Deus dá a si mesmo quando está bêbado.
Passei a madrugada andando pelas ruas do centro,
desviando das putas que pareciam velhos cadillacs.
Cansei de tudo
e era cedo demais para pegar um ônibus,
muito tarde para entrar num bar.
A cidade dormia, ninguém fazia o menor barulho
a não ser os cachorros,
entregadores de jornais
e eu.

Então gritei, saquei o revólver e acertei a manhã pelas costas.
O sangue se espalhou pelo céu, manchando de vermelho o horizonte.
E eu disse ao sol
— é melhor você recuar seu viado ou eu te mato também
e se eu pudesse ao menos encontrar a minha maldita caixa de fósforos
eu tocava fogo nessa cidade falsa
que finge que dorme, faz essa cara de inocente
enquanto eu vagueio perdido como um animal
cheio de fome e lembranças cruéis.






Transpirado de Tom Waits.

Posted in Referências on novembro 1, 2011 by meuparedro




Fragmentos de um Evangelho Apócrifo


3. Desventurado o pobre em espírito, porque debaixo da terra será o que agora é na terra.
5. Ditosos os que sabem que o sofrimento não é uma coroa de glória.
6. Não basta ser o último para alguma vez ser o primeiro.
7. Feliz o que não insiste em ter razão, porque ninguém a tem ou todos a tem.
14. Ninguém é o sal da terra; ninguém, em algum momento de sua vida, não o é.
16. Não há mandamento que não possa ser infringido, e também os que digo e os que os profetas disseram.
18. Os atos do homem não merecem o fogo nem os céus.
19. Não odeies a teu inimigo, porque se o fazes, és de algum modo seu escravo. Teu ódio nunca será melhor que tua paz.
24. Não exageres o culto da verdade; não há homem que ao fim de um dia não tenha mentido com razão muitas vezes.
27. Eu não falo de vinganças nem de perdões: o esquecimento é a única vingança e o único perdão.
31. Pensa que os outros são justos ou o serão, e se não é assim, não é teu o erro.
41. Nada se edifica sobre a pedra, tudo sobre a areia, mas nosso dever é edificar como se fora pedra a areia…
47. Feliz o pobre sem amargura ou o rico sem soberba.
50. Felizes os amados e os amantes e os que podem prescindir do amor.
51. Felizes os felizes.


Jorge Luis Borges
Elogio da Sombra
1969




Fragmentos – A Escrita.

Posted in Referências on setembro 27, 2011 by meuparedro




– Dois mitos poderosos nos fizeram acreditar que o amor podia, devia se sublimar em criação estética: o mito socrático (amar serve para “engendrar uma multidão de belos e magníficos discursos”) e o mito romântico (produzirei uma obra imortal escrevendo minha paixão)

– De um lado é não dizer nada, de outro é dizer demais. Impossível ajustar. Sou ao mesmo tempo muito grande e muito fraco para a escrita. Estou ao lado dela, que está sempre fechada, violenta, indiferente ao eu infantil que a solicita. O amor tem certamente alguma coisa a ver com minha linguagem (que o alimenta), mas ele não pode se instalar na minha escrita.

– Querer escrever o amor é enfrentar a desordem da linguagem: essa região tumultuada onde a linguagem é, ao mesmo tempo, demais e demasiadamente pouca, excessiva (pela expansão ilimitada do eu, pela submersão emotiva) e pobre (pelos códigos sobre os quais o amor a projeta e a nivela)

Saber que não se escreve para o outro, saber que as coisas que eu escrever não me farão nunca amado por aquela que amo, saber que a escrita não compensa nada, não sublima nada, que ela está precisamente aí onde você não está – é o começo da escritura.




Roland Barthes



Posted in Referências on julho 19, 2011 by meuparedro





Bebe comigo.
Lancinante, incontido, fruto de febril gestação.
Como flor que nasce em terreno infame, repleta de seiva,
Bebe comigo.
Cada hora de abraço e contato fraterno, o cansaço mortal,
a dor feita em fiapos entre mãos nervosas que tanto desejam e
Bebe comigo.
Anseios mudos temendo emergir,
sentimentos velados se equilibrando
á beira da total solidão,
Bebe comigo.
Para que a vida não nos afaste demais,
para que teu sorriso sobreviva ás ameaças
cada gota sorvida me transportando por dentro de ti
para sempre tão palpáveis e reais.
Cada frase um código antigo cruzando segredos,
essa trilha que haverá de provar a verdade,
Bebe comigo.



Parceria com Doca Soares, o virador de páginas.


Posted in Referências on maio 31, 2011 by meuparedro





“A maioria silenciosa não liga pra nada, desde que à noite ronrone em suas pantufas… A maioria silenciosa, não se engane, se fecha sua boca é porque ao final das contas ela faz a lei. O que ela reivindica é ser paternalizada e tranqüilizada, além da sua pequena dose inofensiva de imaginário cotidiano”



Jean Baudrillard – À Sombra das Maiorias Silenciosas.



Posted in Referências on maio 10, 2011 by meuparedro



Se coloco meus lençóis no varal do amor,
é para que sequem
ao vento ou
que molhem no orvalho
da madrugada.

Se coloco meus lençóis no varal do amor,
é para que sintam o gosto do vôo.
Para que saibam e me voem,
quando eu estiver na cidade te vendo ao longe
com pés pesados de sonho tentando te alcançar.

Porque sem asas de lençol, você me escapa.
Em vontades úmidas na noite que se acaba,
em palavras incertas nos dias em que te vejo.

Se coloco meus lençóis a voar
é para que as palavras se achem desertas e únicas
a celebrar a vida nas mais doces paragens.
Como que a desejar ser vôo
ou palavra liberta,
sem rodeios noturnos.

Sonhar seu vôo no varal da madrugada.
Que nem os lençóis
ou os amores.



(Parceria com Mr. R.)