Arquivo para novembro, 2011

Posted in tempestade on novembro 28, 2011 by meuparedro





Agora você sabe
que eu preciso ás vezes parar tudo
e passo as minhas noites sozinho pensando nas coisas.
Minha querida, estamos todos sozinhos.
A vertigem está em toda parte, é todo dia.
Tão raro alguém mostrar as cicatrizes.
É a minha história e a minha dor;
não quero te arrastar até aqui embaixo.



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Posted in Referências on novembro 14, 2011 by meuparedro





Descobri que algumas noites não terminam.
Que não existe demônio,
é apenas o nome que Deus dá a si mesmo quando está bêbado.
Passei a madrugada andando pelas ruas do centro,
desviando das putas que pareciam velhos cadillacs.
Cansei de tudo
e era cedo demais para pegar um ônibus,
muito tarde para entrar num bar.
A cidade dormia, ninguém fazia o menor barulho
a não ser os cachorros,
entregadores de jornais
e eu.

Então gritei, saquei o revólver e acertei a manhã pelas costas.
O sangue se espalhou pelo céu, manchando de vermelho o horizonte.
E eu disse ao sol
— é melhor você recuar seu viado ou eu te mato também
e se eu pudesse ao menos encontrar a minha maldita caixa de fósforos
eu tocava fogo nessa cidade falsa
que finge que dorme, faz essa cara de inocente
enquanto eu vagueio perdido como um animal
cheio de fome e lembranças cruéis.






Transpirado de Tom Waits.

Posted in tempestade on novembro 6, 2011 by meuparedro





Seria mais fácil se você tivesse esquecido
doeria menos
não te imaginar
zanzando por entre as ruínas
do que fomos
procurando verdades
entre cacos do que foram olhares
estilhaços de palavras
(nossas melhores palavras)
Seria mais fácil se você nunca tivesse
me deixado saber.






Posted in Referências on novembro 1, 2011 by meuparedro




Fragmentos de um Evangelho Apócrifo


3. Desventurado o pobre em espírito, porque debaixo da terra será o que agora é na terra.
5. Ditosos os que sabem que o sofrimento não é uma coroa de glória.
6. Não basta ser o último para alguma vez ser o primeiro.
7. Feliz o que não insiste em ter razão, porque ninguém a tem ou todos a tem.
14. Ninguém é o sal da terra; ninguém, em algum momento de sua vida, não o é.
16. Não há mandamento que não possa ser infringido, e também os que digo e os que os profetas disseram.
18. Os atos do homem não merecem o fogo nem os céus.
19. Não odeies a teu inimigo, porque se o fazes, és de algum modo seu escravo. Teu ódio nunca será melhor que tua paz.
24. Não exageres o culto da verdade; não há homem que ao fim de um dia não tenha mentido com razão muitas vezes.
27. Eu não falo de vinganças nem de perdões: o esquecimento é a única vingança e o único perdão.
31. Pensa que os outros são justos ou o serão, e se não é assim, não é teu o erro.
41. Nada se edifica sobre a pedra, tudo sobre a areia, mas nosso dever é edificar como se fora pedra a areia…
47. Feliz o pobre sem amargura ou o rico sem soberba.
50. Felizes os amados e os amantes e os que podem prescindir do amor.
51. Felizes os felizes.


Jorge Luis Borges
Elogio da Sombra
1969