Arquivo para março, 2011

Posted in tempestade on março 28, 2011 by meuparedro



O amor é um jardim decorado com canteiros de corações partidos onde vivemos nossas incríveis estórias. Aventuras irresponsáveis que ressuscitaremos em nossos travesseiros pelo próximo milhão de noites. Pequenos suicídios emocionais, overdoses de arrebatamento, angústia, orgulho.


(Tantas noites escorrendo entre a ternura e o naufrágio, um poço que não nos é dado conhecer o fundo.)

Escolhemos a confusão, nos perdemos numa mata de meias-palavras. Lembranças duvidosas, olhares de viés, promessas que jamais poderemos cobrar.


(Você trespassou o coração do meu coração como uma adaga renascentista. Eu preparei este sonho para você, mas você devorou a minha mão.)

O tempo foge e de repente é a vertigem: longe demais para chegar, muito para tentar entender, muito tarde para mergulhar. O lago secou.

(Vem a madrugada e o mundo é um borrão de fracassos úmidos. Eu volto ao conforto da montanha, meu útero freudiano no meio da floresta.)

Então nos recolhemos e aceitamos nosso papel. Somos mártires sacrificados em nome do amor. Sangramos o enredo da nossa estória, a mais triste jamais contada. Cultuamos nossa dor, procuramos a redenção. Como um epitáfio para o sonho destruído, um exorcismo, um grito lancinante.

(Porque todo o amor que sou capaz de roubar, pedir ou emprestar, não basta para aplacar essa dor. O que é o amor? Apenas um prelúdio para a tristeza. Seu objetivo é construir os verdadeiros silêncios)

Trágico é aquele que anda pelas colinas e olha atrás de si o paraíso perdido. Não tem mais nada, não é mais nada. Quer obrigar o mundo a aceitar suas lágrimas, engolir seu silêncio. O mundo tem mais o que fazer. O sol brilha. As flores são belas. O amor é patético.



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Posted in as coisas, tempestade on março 21, 2011 by meuparedro





Finalmente tive a chance de andar por aí. Conhecer pessoas, viver histórias; usar um tanto o meu tempo. Permitindo a mim mesmo não pensar demais, não falar demais. Descobri que já não tenho aquela necessidade de me expressar. Hoje sou capaz de encarar com calma as coisas que não realizei. E tudo o que aconteceu, oportunidades, pequenas vitórias; meus caminhos tão embolados sobre si mesmos. Parece claro que o futuro não deve ser nada parecido com isto. Eu realmente não sei. E vê se não é estranho, aprendi a amar. Voei nas melhores alturas e estive a beira do precipício, todas essas coisas que só podemos sentir nestes momentos. Não sei se me arriscaria a tentar de novo agora. E se de repente eu paro e hesito em correr atrás dos velhos sonhos de infância, é por que simplesmente não é mais o mesmo mundo. Acho que já não sonho tanto, não daquela forma. Hoje eu sei o quanto dói construir ilusões e não me envergonho de passar uma tarde quieto no meu canto, deixando as coisas passarem.
Não me obrigue a reviver meus erros.
Eu ainda não os superei.




Posted in idílios on março 8, 2011 by meuparedro




Foto: mari sanchez


São as mesmas calçadas, o mesmo caminho de sempre.
Imagens que vejo todo dia, dia após dia.
Mas há alguma coisa no ar, ele está mais puro.
Como se a chuva tivesse passado
e o mundo despertasse novamente.
Já vi esse meu rosto milhares de vezes,
cada manhã da minha vida.
E tenho certeza de que estes olhos não eram assim.
Alguma coisa mudou.
É como se o mundo tivesse sido criado de novo.



Posted in as coisas, tempestade on março 1, 2011 by meuparedro




Existe um momento em que nada parece real.
Ruas vazias, portões trancados, janelas mortas.
A hora trêmula da noite.
E se você quiser saber como eu me sinto,
estou só me deixando levar
olhando o tempo
e conjugando imagens em um labirinto imenso.
O momento em que todas as perguntas
parecem conter as respostas em si mesmas.
Eu e minha velha cabeça no limite da incoerência
desejando estupidamente que você pegue o telefone
e torne tudo, de repente,
perfeito.
E se você perguntar para onde eu vou agora,
o que farei da minha vida,
o que posso dizer é que ainda não sei.
Minha única vontade é permanecer longe do chão
na insensatez
desta hora
da noite.