Arquivo para julho, 2010

Posted in idílios on julho 26, 2010 by meuparedro




Minha pequena, não seja assim.
Perceba o tamanho do que conquistamos.
Não existem metáforas ou idéias ou imagens
que possam ensinar a eles o que
sabemos agora.
Eles têm os olhos frios, suas mãos são velhas.
Seus corpos não querem mais nada,
a não ser o de sempre.
O sol é humilde demais
para tirar o mofo de todas essas vidas.
A noite é enorme.




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Posted in Referências on julho 20, 2010 by meuparedro




O homem anda pela avenida de espelhos
e subitamente descobre a imagem de si mesmo.
Um vislumbre fugaz; ele não tem certeza
se viu seu verdadeiro rosto
ou se é um estranho em seu lugar.
Ainda assim ele se apaixona pela imagem e se preocupa,
ela ás vezes parece distorcida.
Então molda a pessoa que gostaria de ser
e cria uma nova personalidade.
Muitos escolhem viver no espelho,
na companhia de seus próprios ecos.
Mesmo os mais brilhantes
são capazes de fossilizar suas vidas
do outro lado do espelho.




Transpirado de Kraft Werk



Posted in tempestade on julho 13, 2010 by meuparedro




Querida Tia Eugênia


Em primeiro lugar, quero garantir á senhora que estou bem apesar de tudo. Na segunda-feira, dois dias após a nossa conversa, aquela minha dor se tornou aguda por demais e resolvi seguir seu conselho: falei com o primo Gabriel e marquei consulta no cardiologista do qual me falaste.

O consultório do doutor é mesmo vistoso, mais parece um palácio daqueles das histórias. Fui atendido em poucas horas.(Gabriel é mesmo influente!) Tia, a medicina mudou muito. Tantos exames, auscultações e cardiogramas; eu estava certo de que o famoso médico teria a solução para o meu problema. Mas quê nada. Ele me fez sentar em uma cadeira de couro e começou a revirar aquelas coisas, tia, as que me dóem.

E por Deus, ele percorreu todos os momentos mais intensos. A primeira vez que a vi, o modo como ela inclinava a cabeça para me ouvir, o cheiro que tinha no pescoço. Mesmo com a anestesia, a pontada era ás vezes terrível e eu não conseguia reprimir uns gemidos que faziam o doutor franzir seus olhos tão medicinais. Ele passou horas chapinhando, pensei que não fosse aguentar.

Quando finalmente acabou, eu vou te dizer, tia. Acalme-se agora, não tenha medo, não caia de costas. Está tudo bem. Mas foi bizarro, o doutor olhou longamente pela janela, suspirou e me mandou desaparecer da frente dele. Simples assim. Ele estava pálido e rabiscava naquela caligrafia garranchuda e tia, a prescrição que escrevia era para ele mesmo. Eu vi, posso te jurar! Ele escrevia o nome dela, várias vezes, como um demente! Antes que eu tivesse tempo de reagir, deu uma gargalhada gorgolejante e correu para a sala de exames, trancando-se lá dentro. Eu não podia aceitar, tia, eu bati, quase derrubei a porta.

As enfermeiras tiveram que me arrastar de lá. E ele levou tudo, a lembrança das nossas idas e vindas, as imagens que eu guardava com tanto ciúme. Eu queria matar aquele maldito doutor. Só me acalmei quando, ao voltar no dia seguinte, soube pela secretária que ele só piorava; sua carreira está arruinada. Tive até pena.

Tia, agora estou em casa tomando aqueles chazinhos que vovó dizia milagrosos. Ás vezes quase me esqueço, chego a sorrir com as coisas bonitas que vejo na janela. Eu te asseguro, não se preocupe comigo. Espero ainda passar o Natal com a senhora e os primos, morro de saudades do seu pavê de pêssegos. Tudo vai ficar bem.



Um beijo do seu sobrinho.

Posted in idílios on julho 6, 2010 by meuparedro





Eu falo no passado e seus olhos brilham
como uma tela de cinema.
As cenas favoritas, datas e imagens musicais.
Nosso orgulho de ter vencido os desencontros.
Eu falo no futuro e ela desenha com o dedo no ar:
uma praia e o dia inteiro só para nós.
Eu falo no presente e ela me beija no rosto
e me perdôa.