Arquivo para abril, 2011

Posted in idílios on abril 25, 2011 by meuparedro




Não faz muito tempo, eu tive um sonho. Andava numa floresta e havia animais por toda parte. Eles brilhavam e se exibiam em seus amarelos, verdes e vermelhos. Pareciam estar apaixonados, assim como eu e você. Eu percorria as trilhas da floresta e então te vi, você me esperava na curva do caminho. Passeamos de mãos dadas e os animais nos olhavam com olhos imensos. Percebemos que brilhávamos como eles, e ficamos felizes também.

Num pequeno vale entre as árvores, encontramos uma toca muito escura. O animal que vivia nela não queria sair e passear conosco. Curiosos, paramos e esperamos à entrada da toca até ele aparecer. Era um puma pardo, solene e silencioso. Nós o chamamos para fora, ele veio de má-vontade. Pedimos que nos contasse sua história,
mas ele estava cheio de vergonha. Achava que zombaríamos de sua timidez.

Então nós o levamos ao planalto e o deixamos ganhar todos os jogos. Brincamos até o sol começar a mudar, tingindo de dourado a floresta. Ele estava muito mais contente, e já o amávamos. Mas a noite se aproximava e os olhos do puma se encheram de lágrimas, ele ficou triste porque tínhamos que partir. Dissemos a ele para agir com bravura, e nunca se sentir menosprezado. Ele era o animal mais bonito que já havíamos visto. Dissemos para ser ele mesmo, e jamais querer mudar. Ser o que se é, é perfeito.
Ser qualquer outra coisa é estranho.

O puma pardo pareceu entender e nos fitou longamente com seus olhos brilhantes. Então ele desapareceu, assim como a floresta. E quando abri meus olhos não havia mais nada, a não ser você.



Posted in idílios on abril 18, 2011 by meuparedro





eu a observo brincar
de viver
e cada vez que a vejo sorrindo
é como
se ela fizesse alguma coisa com esse meu coração
e quando ela pára e olha ao longe
tão alerta
eu tento imaginar
o que pode haver
por trás desses olhos
que brilham o mundo
e me deixam assim
e sei bem
que seja lá o que for
não é nada como eu
e então eu me sinto
um pequeno
cronópio.





Posted in Referências on abril 11, 2011 by meuparedro





Mas ela percebeu isso e lhe explicou, com a voz paciente, que, ao
contrário do que se pensa, a magia não é feita de fora, mas de dentro.
Por isso é que se fala tanto na necessidade de ter fé para que as coisas
aconteçam, pois a fé, afinal, não passa de uma maneira de ver o mundo que torna possíveis aquelas coisas que se deseja que aconteçam.
A fé, portanto, é um conhecimento, conhecimento que ele não tinha e ninguém lhe poderia dar, só ele mesmo, embora pudesse ser ajudado. Estava disposta a ajudá-lo, se ele quisesse e desde que compreendesse que o mundo pode ser visto de muitas formas. Ele certamente sabia que as pessoas que tem excessiva certeza de que há um só caminho e uma só verdade, verdade que lhes é inteiramente conhecida, são perigosas e propensas a todo tipo de crime. Saber da verdade e querer impô-la aos outros, num mundo onde tudo muda e tudo se encobre por toda sorte de aparências, é uma grave espécie de loucura. Por isso as pessoas loucas não entendem o Evangelho dos padres. Lá diz que se dê a outra cara quando se tomar uma bofetada e lá também se parte para encher de porrada os vendilhões do templo. Qual é o certo ? A cabeça coroca, a cabeça empedrada, a cabeça que não se aventurou por caminhos que abram outras entradas para ela, esta cabeça escolherá um dos dois jeitos e passará a condenar o outro jeito, inventando as razões mais estúpidas para que o outro jeito não valha nada. Isso porque não compreende que tanto se deve dar a outra cara quanto se deve partir para a porrada, porque a vida é assim, ali diz uma coisa, ali diz outra, a vida não é escrita em tabulinhas, nem suas ordenações são arrumadas como os homens loucos querem, a única coisa arrumada é a mentira, a qual é a
explicação certinha.


Viva o Povo Brasileiro“, João Ubaldo Ribeiro.



Posted in tempestade on abril 4, 2011 by meuparedro



Não quero ficar quieto no meu canto.
Caçar notícias, fugir das notícias;
jogar esse jogo.
Fingir que.
Não quero.
Desejo apenas viver o meu melhor
e dormir em paz.
Chega uma hora em que não adianta,
nada vai acontecer prá tornar melhor
ou pior.
Algumas coisas valeram,
outras foram mesmo erradas
e é isso.
Por isso é a hora de dar adeus
aos fantasmas que eu brincava de chamar esperanças.
Um mundo de intensidades
que só existia por causa de você.
É preciso que o tempo volte a passar
e as coisas se acostumem a seus tamanhos
e algum dia
talvez algum dia
quem sabe da próxima vez
possamos nos ver de novo.