Descobri que algumas noites não terminam.
Que não existe demônio,
é apenas o nome que Deus dá a si mesmo quando está bêbado.
Passei a madrugada andando pelas ruas do centro,
desviando das putas que pareciam velhos cadillacs.
Cansei de tudo
e era cedo demais para pegar um ônibus,
muito tarde para entrar num bar.
A cidade dormia, ninguém fazia o menor barulho
a não ser os cachorros,
entregadores de jornais
e eu.

Então gritei, saquei o revólver e acertei a manhã pelas costas.
O sangue se espalhou pelo céu, manchando de vermelho o horizonte.
E eu disse ao sol
— é melhor você recuar seu viado ou eu te mato também
e se eu pudesse ao menos encontrar a minha maldita caixa de fósforos
eu tocava fogo nessa cidade falsa
que finge que dorme, faz essa cara de inocente
enquanto eu vagueio perdido como um animal
cheio de fome e lembranças cruéis.






Transpirado de Tom Waits.

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