Fragmentos – A Escrita.




– Dois mitos poderosos nos fizeram acreditar que o amor podia, devia se sublimar em criação estética: o mito socrático (amar serve para “engendrar uma multidão de belos e magníficos discursos”) e o mito romântico (produzirei uma obra imortal escrevendo minha paixão)

– De um lado é não dizer nada, de outro é dizer demais. Impossível ajustar. Sou ao mesmo tempo muito grande e muito fraco para a escrita. Estou ao lado dela, que está sempre fechada, violenta, indiferente ao eu infantil que a solicita. O amor tem certamente alguma coisa a ver com minha linguagem (que o alimenta), mas ele não pode se instalar na minha escrita.

– Querer escrever o amor é enfrentar a desordem da linguagem: essa região tumultuada onde a linguagem é, ao mesmo tempo, demais e demasiadamente pouca, excessiva (pela expansão ilimitada do eu, pela submersão emotiva) e pobre (pelos códigos sobre os quais o amor a projeta e a nivela)

Saber que não se escreve para o outro, saber que as coisas que eu escrever não me farão nunca amado por aquela que amo, saber que a escrita não compensa nada, não sublima nada, que ela está precisamente aí onde você não está – é o começo da escritura.




Roland Barthes



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Uma resposta to “Fragmentos – A Escrita.”

  1. Gil. Que maravilhoso isso. Vc que traduziu? Acho que nunca li nada de Barthes, só sobre ele em teorias da linguagem… o que vc recomenda? Bjos

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