Mas ela percebeu isso e lhe explicou, com a voz paciente, que, ao
contrário do que se pensa, a magia não é feita de fora, mas de dentro.
Por isso é que se fala tanto na necessidade de ter fé para que as coisas
aconteçam, pois a fé, afinal, não passa de uma maneira de ver o mundo que torna possíveis aquelas coisas que se deseja que aconteçam.
A fé, portanto, é um conhecimento, conhecimento que ele não tinha e ninguém lhe poderia dar, só ele mesmo, embora pudesse ser ajudado. Estava disposta a ajudá-lo, se ele quisesse e desde que compreendesse que o mundo pode ser visto de muitas formas. Ele certamente sabia que as pessoas que tem excessiva certeza de que há um só caminho e uma só verdade, verdade que lhes é inteiramente conhecida, são perigosas e propensas a todo tipo de crime. Saber da verdade e querer impô-la aos outros, num mundo onde tudo muda e tudo se encobre por toda sorte de aparências, é uma grave espécie de loucura. Por isso as pessoas loucas não entendem o Evangelho dos padres. Lá diz que se dê a outra cara quando se tomar uma bofetada e lá também se parte para encher de porrada os vendilhões do templo. Qual é o certo ? A cabeça coroca, a cabeça empedrada, a cabeça que não se aventurou por caminhos que abram outras entradas para ela, esta cabeça escolherá um dos dois jeitos e passará a condenar o outro jeito, inventando as razões mais estúpidas para que o outro jeito não valha nada. Isso porque não compreende que tanto se deve dar a outra cara quanto se deve partir para a porrada, porque a vida é assim, ali diz uma coisa, ali diz outra, a vida não é escrita em tabulinhas, nem suas ordenações são arrumadas como os homens loucos querem, a única coisa arrumada é a mentira, a qual é a
explicação certinha.


Viva o Povo Brasileiro“, João Ubaldo Ribeiro.



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Uma resposta to “”

  1. terras de nenhú Says:

    É…
    essa é a linguagem por onde um diálogo começa, uma porta se abre, um pedacinho de resposta se esboça.
    A fé e a magia sorrindo para os estilhaços da verdade… (Viva o brasileiro João Ubaldo!).
    Nada nunca está terminado, há que recomeçar “como canções e epidemias…recomeçar como a paixão”!

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