O amor é um jardim decorado com canteiros de corações partidos onde vivemos nossas incríveis estórias. Aventuras irresponsáveis que ressuscitaremos em nossos travesseiros pelo próximo milhão de noites. Pequenos suicídios emocionais, overdoses de arrebatamento, angústia, orgulho.


(Tantas noites escorrendo entre a ternura e o naufrágio, um poço que não nos é dado conhecer o fundo.)

Escolhemos a confusão, nos perdemos numa mata de meias-palavras. Lembranças duvidosas, olhares de viés, promessas que jamais poderemos cobrar.


(Você trespassou o coração do meu coração como uma adaga renascentista. Eu preparei este sonho para você, mas você devorou a minha mão.)

O tempo foge e de repente é a vertigem: longe demais para chegar, muito para tentar entender, muito tarde para mergulhar. O lago secou.

(Vem a madrugada e o mundo é um borrão de fracassos úmidos. Eu volto ao conforto da montanha, meu útero freudiano no meio da floresta.)

Então nos recolhemos e aceitamos nosso papel. Somos mártires sacrificados em nome do amor. Sangramos o enredo da nossa estória, a mais triste jamais contada. Cultuamos nossa dor, procuramos a redenção. Como um epitáfio para o sonho destruído, um exorcismo, um grito lancinante.

(Porque todo o amor que sou capaz de roubar, pedir ou emprestar, não basta para aplacar essa dor. O que é o amor? Apenas um prelúdio para a tristeza. Seu objetivo é construir os verdadeiros silêncios)

Trágico é aquele que anda pelas colinas e olha atrás de si o paraíso perdido. Não tem mais nada, não é mais nada. Quer obrigar o mundo a aceitar suas lágrimas, engolir seu silêncio. O mundo tem mais o que fazer. O sol brilha. As flores são belas. O amor é patético.



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5 Respostas to “”

  1. Uau! Gostei tanto!!!

    Engraçado uma coisa que você escreveu… esses tempos, eu me perguntava se eu era louca (perguntava de verdade mesmo!) por me sentir menos só abraçando meu travesseiro e sonhando acordada. Acabei descobrindo que até que é normal. Mas, eu tô sempre nessa de ressuscitar pessoas no meu travesseiro… e sim, por mil noites.

    Gosto muito dessa passagem também: “Escolhemos a confusão, nos perdemos numa mata de meias-palavras. Lembranças duvidosas, olhares de viés, promessas que jamais poderemos cobrar”.
    Fiquei pensando… será que escolhemos entrar nessa confusão de meias palavras e promessas que jamais poderemos cobrar? …Acho que nem temos muita escolha…. porque é essa curiosidade toda, esse mistério de querer conhecer o fundão do poço e só ter a superficie, é tudo isso que faz dessa imagem linda e instigante.

    Mas Gilllll, o amor não é patético, só é humano e lindo, mesmo quando dói assim, aliás, principalmente quando dói assim!

    De novo, amei!

  2. “O amor é um jardim decorado com canteiros de corações partidos onde vivemos nossas incríveis estórias.” Perfeito, como sempre. E sim, concordo com você: o amor é patético. Mas por que, então, estamos continuamente em busca dele?

  3. Fim de novembro
    (do romeno Dinu Flămând. Gostei por demais, Besú, principalmente por me lembrar teus escritos…beijo e bom fim de semana montanhoso.)

    novembro termina antes de começar
    e a noite já se aninhou
    na cama do dia e na minha também
    tomando o seu lugar
    chove no campo
    você volta para mim sem ter partido
    e a mesma dúvida estende sua mão para nós
    meu único ouvido desperto é ainda o meu olfato
    que lembra a si mesmo o farfalhar da sua pele
    e só posso ver vê-la com meus olhos fechados
    através da luz filtrada
    é apenas a distância que nos põe um diante do outro
    ausência perto de ausência
    e então a espreita com que mutuamente nos ignoramos
    começa sua procura.

  4. Quero banho pelada no lago do Gil

  5. Acho que construir verdadeiros silêncios nunca foi ou será o objetivo de ninguém. é sim um claustro de pura tristeza e condição.

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