Querida Tia Eugênia


Em primeiro lugar, quero garantir á senhora que estou bem apesar de tudo. Na segunda-feira, dois dias após a nossa conversa, aquela minha dor se tornou aguda por demais e resolvi seguir seu conselho: falei com o primo Gabriel e marquei consulta no cardiologista do qual me falaste.

O consultório do doutor é mesmo vistoso, mais parece um palácio daqueles das histórias. Fui atendido em poucas horas.(Gabriel é mesmo influente!) Tia, a medicina mudou muito. Tantos exames, auscultações e cardiogramas; eu estava certo de que o famoso médico teria a solução para o meu problema. Mas quê nada. Ele me fez sentar em uma cadeira de couro e começou a revirar aquelas coisas, tia, as que me dóem.

E por Deus, ele percorreu todos os momentos mais intensos. A primeira vez que a vi, o modo como ela inclinava a cabeça para me ouvir, o cheiro que tinha no pescoço. Mesmo com a anestesia, a pontada era ás vezes terrível e eu não conseguia reprimir uns gemidos que faziam o doutor franzir seus olhos tão medicinais. Ele passou horas chapinhando, pensei que não fosse aguentar.

Quando finalmente acabou, eu vou te dizer, tia. Acalme-se agora, não tenha medo, não caia de costas. Está tudo bem. Mas foi bizarro, o doutor olhou longamente pela janela, suspirou e me mandou desaparecer da frente dele. Simples assim. Ele estava pálido e rabiscava naquela caligrafia garranchuda e tia, a prescrição que escrevia era para ele mesmo. Eu vi, posso te jurar! Ele escrevia o nome dela, várias vezes, como um demente! Antes que eu tivesse tempo de reagir, deu uma gargalhada gorgolejante e correu para a sala de exames, trancando-se lá dentro. Eu não podia aceitar, tia, eu bati, quase derrubei a porta.

As enfermeiras tiveram que me arrastar de lá. E ele levou tudo, a lembrança das nossas idas e vindas, as imagens que eu guardava com tanto ciúme. Eu queria matar aquele maldito doutor. Só me acalmei quando, ao voltar no dia seguinte, soube pela secretária que ele só piorava; sua carreira está arruinada. Tive até pena.

Tia, agora estou em casa tomando aqueles chazinhos que vovó dizia milagrosos. Ás vezes quase me esqueço, chego a sorrir com as coisas bonitas que vejo na janela. Eu te asseguro, não se preocupe comigo. Espero ainda passar o Natal com a senhora e os primos, morro de saudades do seu pavê de pêssegos. Tudo vai ficar bem.



Um beijo do seu sobrinho.

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2 Respostas to “”

  1. Coisa finíssima essa tal de medicina, poeta. Há de se dizer, por muitos aí afora, que é ciência. Não tendo a acreditar nesses selvagens ajalecados. Disseram ter-me arrancado o apêndice, mas tenho por mim que um pedaço do coração. Malditos!

  2. Tinha esquecido de como eu gostava de te ler, Gil… o mais curioso nos teus textos é que eles produzem imagens em “tecnicolor” na minha mente!

    Adoro!

    bjos

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